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domingo, 17 de agosto de 2008



I


Bibliotecária e muito tímida: o trabalho era uma boa desculpa para falar sussurrando - "devia ser o costume", comentavam os vizinhos. Seus cabelos castanhos sempre iam presos num rabo-de-cavalo; todos os dias usava saias de pregas e camisetes bem assentados; eram marrom, bege, pérola, gelo e todas as gradações dos tons invisíveis. Acordava às sete horas e um minuto - não gostava de horas redondas. Quando saía de casa levava músicas no ouvido - tinha decidido aprender inglês por meio delas - um livro nas mãos, a bolsa e o guarda-chuva.


II


Atrapalhado: não era muito bom em pensar e prestar atenção ao que acontecia do lado de fora, assim, vivia esbarrando e tropeçando - "nas idéias", como dizia a sua avó, "nas idéias". Os cabelos escuros eram penteados de lado; os óculos, obrigatórios desde cedo, tinham aros pretos; usava calças xadrez, camisas claras e sapatos sempre bem engraxados. Trabalhava como técnico de manutenção, numa grande fábrica de máquinas fotocopiadoras. Queria aprender a falar com doçura e cadência, por isso ouvia bossa nova.



I + II


Então um dia aconteceu, numa esquina comum aos dois; um atraso, anormal para ela; um esbarrão, trivial para ele.
Coisas no chão, num arremedo de desculpas, palavras ditas ao mesmo tempo.
- Eu nunca... - sussurrou ela.
- Eu sempre... - arranhou ele.
Sorrisos encabulados e o brilho de um talvez...



Foto:http://anemotionalfailure.deviantart.com/art/Vintage-idea-36471687

segunda-feira, 11 de agosto de 2008


A janela aberta vira moldura para a cortina que dança serelepe, conduzida-seduzida pelo vento.
Os papéis e fotografias, espalhados pelo chão, mudam de lugar numa tentativa de combinação: sorrisos distantes, frases alegres, carta de adeus, por do sol na praia...
Imagens, palavras e o vento.


É assim que está tudo quando ela chega em casa.
Da porta, aprecia o cenário, por alguns instantes chega a ensaiar uma reclamação mental pela janela esquecida aberta, mas muda de idéia.
Entra, coloca uma música, tira os sapatos e atira a bolsa no sofá. Pega uma taça de vinho e senta no chão. Muita lembrança embaralhada no piso frio.


Poucos minutos e começa a chover.
Ela corre e fecha a janela, encerrando, sem saber, os galanteios do vento e deixando uma cortina triste a escorrer pela vidraça.
Um trovão e ela sorri lembrando do que ouviu, "não fica assustada, sou eu gritando que te adoro".
Papéis e fotografias vão parar na gaveta...
Ela teve o passado - por vezes, foi ele quem teve a moça - mas isso foi antes, quando ela tinha medo de trovões.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008



No céu, poucas nuvens passavam apressadas. Um vento de assovio fazia a árvore balançar. Ao longe uma música baixa, gostosa de ouvir, talvez the heart of saturday night - certo que com algumas horas de atraso, afinal era manhã de domingo.


Mais um agosto e de novo aquelas várias alusões ao desgosto. Sempre estranhou essa idéia de conferir poderes aos dias, objetos e números - como se deles emanasse uma espécie de força a conduzir o destino: azares e sortes.
Dizem que o mês em curso é muito pouco propício aos relacionamentos amorosos. Essa pecha nasceu em Portugal, na época das grandes navegações... agosto era quando as embarcações zarpavam dos portos, então as mulheres que se casavam nesse mês não tinham lua-de-mel.


Ela é de agora, suas descobertas prescindem de grandes navegações e suas expansões ultramarinas não carecem de portos. Assim, recebe o mês com o coração tranquilo - é certo que a saudade anda espiando atrás da porta - mas ela mantém um sorriso leste a oeste, e segue pensando em abraços, cobertas e Djavan à capela.


http://lilfloweronthefield.deviantart.com/art/my-name-is-hope-56620620