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quinta-feira, 11 de setembro de 2008

E aconteceu que um dia ela acordou com os olhos embaçados. Eles não doíam ou ardiam, não estavam vermelhos ou inchados, mas tudo que via era semelhante a uma fotografia mal focada.
Piscou várias vezes... Faltou ao trabalho. Usou colírio... Fechou as cortinas. Por fim, marcou uma consulta.

Dirigir? Andar? Escolheu um táxi - bem ela que fazia tempo não confiava nos olhos dos outros. Enquanto o carro seguia, colocou os cabelos atrás da orelha e arrumou os óculos escuros, que eram grandes como o medo.

Exames físico e complementares... inconclusivos.
Nada errado, foi o que o médico disse, entregando a receita - um colírio e um calmante.

Ela conhecia um outro tipo de falta de visão: Já ficou cega de raiva, tropeçando em sonhos desperdiçados e arremessando palavraspedra; cega de paixão, tateando paredes de castelos feitos de nuvens e vento; já fechou os olhos com força para não enxergar o que não queria, numa espécie de cegueira voluntária; e já foi incapaz de ver o que estava bem na sua frente, num tipo de ingenuidade instrumental. Mas em todos esses casos ela via com os olhos, era a razão que estava obliterada. Agora não, o mundo parecia nublado.

Desanimada pegou outro táxi, queria ir para casa...
O motorista - um senhor que parecia muito idoso para dirigir - puxou conversa. Taí uma coisa que ela não tinha a menor vontade de fazer naquele momento, conversar. Então se limitou a ouvir, soltando de vez em quando um aham, um sei, ou um imagino.
Quando estacionou o carro na porta da casa dela o senhor perguntou:
- Vista ruim?
Ao que ela respondeu com outro aham.
- Coração úmido embolora as vistas - foi o que ele disse enquanto dava partida no carro.

E de repente ela tinha pressa.
Subiu as escadas, trombando com sombras. Destrancou a porta de casa e correu para o quarto. Abriu gavetas e armários - devia estar ali, em algum lugar - o tempo passava e tudo era desordem: roupas na cama, livros no chão, cabelos soltos no rosto... Ela estava cansada e apreensiva, mas agora só faltava uma cômoda antiga.
Abriu devagar, gaveta por gaveta, sem sucesso... Em desalento, mas ainda segura por um fio de esperança, abriu a última e foi lá que encontrou, guardado bem no fundo, junto com outras coisas antigas e usadas, o coração, que um dia tinha tirado do peito.
Com cuidado, colocou-o de volta no lugar - certas coisas não devem ficar em gavetas.




http://bellemagie.deviantart.com/art/Paper-Heart-59217882

domingo, 31 de agosto de 2008

O dia tinha sido comum - os horários, o trabalho, as pessoas, os lugares - mas ela estava diferente.
Uma sensação de falta, um incômodo que insistia em segui-la até em casa. Pelas calçadas de sempre, aumentava e diminuía o passo, mas foi vã sua tentativa de despistar a inquietude.

Chegou, desabotoou a saia e abriu a janela como se buscasse uma liberdade figurada, deixou que o vento brincasse com os seus cabelos por alguns instantes, enquanto tentava esquecer... mas não conseguiu.
Impaciente foi ao banheiro, com as mãos em concha e em movimentos repetidos jogou água gelada no rosto. Pouco tempo depois a água lhe escorria pelo pescoço, molhando a camisa já amarrotada e arrepiando a pele. Abrindo os olhos, viu seu reflexo no espelho... pode ouvir a voz de Cecília - "eu não tinha esse rosto de hoje. Assim calmo, assim triste...".
Cansada de lutar contra a perturbação que já havia se instalado em seu espírito, deixou-se cair, exaurida, no sofá da sala.
Ali, entregue, largou as armas, tirou as máscaras, despiu-se do figurino e descalçou os sapatos de concreto.
Para sua surpresa, na medida em que se afastava do modelo que lhe era imposto, com mais clareza via a si mesma. Longe dos excessos, da certeza fixa e da verdade pronta, pôs-se atenta e por fim, pode escutar a sua alma.


Quando deu por si, a noite já ia alta. O silêncio era regra, excetuado apenas por um rádio, que numa batida gostosa repetia, lá longe, "a vida é curta para ser pequena."
Pensando que amanhã seria o primeiro dia, olhava o mundo pela janela do apartamento: tudo era diverso... Seus olhos eram os mesmos, mas o foco era outro.
Cansada e feliz, vestiu o pijama e foi dormir.


Foto: http://detail24.deviantart.com/art/life-83390630

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Deixou o corpo desenrolar devagar, bem na velocidade de domingo. Ainda na cama, ouviu a chaleira que apitava na cozinha, lembrando à boca o gosto do café.
Tomou um banho morno e demorado, desses que deixam as pontas dos dedos enrugadas, os ombros soltos, a alma lavada e perfumada.


O céu de inverno estava diferente... Um sol morno num azul aberto... Parecia convidar para uma volta.
Como ela nunca foi de dar toco no céu, não se fez de rogada e saiu distraída como aquele eu te amo, que sem ensaio, escorrega no peito, tropeça na língua e cai da boca.





Foto: http://ultraviolett.deviantart.com/art/monday-morning-49137001